Senhor do tempo

Ciro Facundo e Juliana Alves

Cara de assustador à luz da lua, bom samaritano ao entardecer, árido ao sol a pino, em dias festivos faz gosto ver.

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Senhor antigo, daqueles que nasceram com a cidade, mas humilde demais para se vangloriar disto. Face enrugada, marcada pelo tempo e pelos desafios impostos pela vida. Em seu corpo, outros corpos, outras vidas. Em seus membros, mais histórias, mais poesia. Há quem diga que com uns foi severo, mas também acolheu muitos. A verdade é que abriga a quem o procura, pois ele, não procura ninguém.

Passa uma impressão, fisicamente falando, que é frágil e que a qualquer momento chegará seu fim. Forte, porém, se mantém de pé ano após ano, nos mostrando que os mais novos podem ser vistosos e rebuscados, mas nunca terão sua experiência, nunca terão sua história.

Sua maior virtude? Saber escutar. Escuta como ninguém. Segredos, confissões, pedidos de desculpas e sinceros perdões. Já escutou de tudo, do mais simples bate-papo ao mais complexo diálogo. Sempre com a mesma atenção, sempre com o mesmo zelo.

Nascido em 1909, já viu muita coisa acontecer nos seus mais de 100 anos de vida. Já recebeu muitos visitantes. Alguns, por obra do destino, ficaram até hoje.

Agora, por incrível que possa parecer, recebe mais visitas não no seu dia, mas no dia dos outros. Também, por isso não se ressente, recebe a todos fraternamente como sempre o fez. Paciente e impávido, realiza no dia 02 de novembro, o encontro entre visitante e visitado. O Cemitério São João Batista, no dia de finados.