Kafkiano

No dicionário informal, kafkiano quer dizer: uma situação indesejada em que um indivíduo, sem o querer, se depara como inserido, ficando com a real impressão de que, enquanto a situação perdura, está vivendo em uma dimensão irreal, em estado de perplexidade, podendo, em decorrência, ser levado a uma condição mental totalmente desajustada.

Apresentado o verbete, vamos ao contexto.

Quarta-feira, véspera de feriado, recebo uma ligação. Um amigo convidando para jantar. Parto para buscá-lo enquanto coloco uma música no rádio do carro. Logo após uma curva acentuada me deparo com uma blitz, coisa corriqueira em minha cidade. Diminuo a velocidade e recebo a ordem para encostar e desligar o carro.

Conversa vai, conversa vem, entendo que não poderei continuar meu caminho. Pelo menos, não dirigindo. Recebo a notícia de que, apesar de os documentos estarem em dia, o carro não poderá ser liberado devido algumas multas que constam em atraso no sistema. Não entendo, pois nunca fui notificado de nenhuma multa, mas meu ceticismo acaba quando o guarda me informa com detalhes, uma por uma, as cinco multas. Ultrapassar sinal vermelho, parar em cima da faixa de segurança, estacionar em local proibido, faróis apagados em rodovia e alta velocidade em zona controlada por radar. Vou para casa cabisbaixo, ainda com fome e a pé.

Passo metade do feriado pensando em como me meti nesta cilada que há dois dias não existia. Passo a outra metade do feriado pensando em como sair desta cilada que há dois dias eu nunca imaginaria. Neste marasmo, passa-se a quinta-feira.

Na sexta, acordo bem cedo. Não posso passar o fim de semana sem carro. Vou direto ao DETRAN para pagar estas multas e recuperar meu carro. Chego ao Departamento às 8h da manhã, recebo uma senha e espero placidamente minha vez de ser atendido. Pode parecer que cheguei cedo demais, mas o local já estava lotado e alguns com o ânimo já exaltado. Não entendo porque tanta destemperança, penso. Mais tarde eu entenderia.

Finalmente sou atendido, precisamente às 9h45. Já não estou tão plácido. Explico minha situação para a atendente e informo os dados do veículo. Para minha surpresa, o carro ainda constava em nome da antiga proprietária e somente ela poderia requerer algo do veículo. Provavelmente algum problema na concessionária ou no despachante. Eu disse que resolveria. Porém, fui informado que para reaver meu carro teria, agora, que resolver os dois problemas.

Dirijo-me à garagem de veículos onde adquiri meu carro e inteiro-me de que o documento realmente não foi enviado ao despachante, pois a ex-proprietária não o havia assinado. A mesma mora na zona rural, afastada da cidade, um lugar de difícil localização. De posse do documento, parto em busca desta mulher, num lugar remoto.

Não foi difícil encontrar o local, difícil mesmo foi chegar até lá. O lugar é longe e pouco habitado. Pessoas com cara de poucos amigos, árvores secas e cachorros duelando com urubus por um cadáver de animal que não consigo definir a espécie. São os elementos que decoram a paisagem local. Bato palmas em frente à casa indicada no papelzinho que tenho em mãos e me recebe uma mulher baixinha e enfezada, que fez os moradores do bairro parecerem cordeiros de um lindo rebanho. Após uma recepção acalorada com palavras que prefiro omitir neste texto, ela me explica que já está movendo um processo contra mim devido a estas multas. Então percebo o porquê de eu não haver sido notificado: como o carro não estava no meu nome, notificaram a ela.

Tento me desculpar e alegar minha inocência por meio da ignorância do fato ocorrido. Realmente, eu não sabia da existência das multas e não sabia da incompetência do vendedor ao realizar uma venda incompleta, sem a devida transferência legal da documentação do veículo. Explico que estou resolvendo tudo pessoalmente e que não tardarei em concluir minha missão. Explico também que arcarei com todas as despesas advindas destes trâmites. Recebo mais algumas palavras de incentivo da senhora e parto para meu destino: o DETRAN.

Já no órgão público, pergunto onde devo apresentar a documentação, ganho uma senha e espero por mais alguns minutos. Finalmente sou atendido. A senhora que me atende agora tem uma cara boa, além de muito simpática e atenciosa. Porém, direta e implacável, diz: “Senhor, o senhor precisa do requerimento assinado em três vias. O senhor só trouxe uma, senhor”. Tento explicar que trouxe somente uma, pois assim fui instruído aqui mesmo, no órgão. Sem sucesso. Ela finaliza: “Vou precisar das três vias assinadas, senhor”

Engulo o seco e digo que resolverei tudo após o almoço. Então sou informado que o DETRAN funcionará somente meio expediente nesta sexta-feira devido ao feriado de quinta. Engulo o choro e digo que voltarei na segunda.

Sobre o fim de semana digo que não foi um dos melhores, mas me fez esquecer um pouco a bola de neve que vinha se formando acima de mim. Passo à segunda-feira.

Acordo cedo. Disposto, confiante, positivo. Saio apresado e sem tomar café da manhã, hoje estou decidido a resolver toda a situação. Parto para o DETRAN. Ao chegar e solicitar uma senha para atendimento descubro que não acordei tão cedo assim. Mais uma demora incrível, sou atendido às 10h25. Explico minha situação e solicito mais duas vias à atendente para realizar as transferências das multas. Muito solicitamente ela me atende e posso, mais uma vez, ir ao encontro da educadíssima ex-proprietária do meu carro.

De volta àquele bairro pitoresco, paro diante da casa da senhora, que já está a minha espera. Tenho que explicar toda a situação novamente. Que também não estava tão clara para mim. Porém, consigo contar todo o ocorrido e ela assina os outros dois documentos. Coincidência ou não, ela me diz que há pouco estava falando com sua advogada, mas sobre outro assunto. Parto de volta para o DETRAN.

No órgão tudo ia muito bem. Enfim, consigo entregar todas as três vias e protocolar os documentos antes das 14h. Fico feliz pois terei tempo de retirar o carro ainda neste dia. Porém, kafkianamente, o desfecho muda. A atendente me informa que, infelizmente, o sistema só será atualizado às 17h. Eu teria que retornar amanhã para continuar minha saga.

Retorno à minha casa emanando cortisol pelos poros, no mais alto nível de stress que já havia experimentado. Enquanto preparo o jantar penso em toda a saga que passei nestes últimos dias e lembro-me que amanhã ela continua, pois ainda necessito transferir o documento do carro para meu nome. Termino o dia sem reagir a estímulos, fazendo tudo no piloto automático. Neste momento, deitado em minha cama e prestes a dormir recordo-me de certa vez haver escutado uma coisa interessante em um desses programas de TV: o Brasil é o único país do mundo onde existem os despachantes, profissionais especializados em cuidar de trâmites administrativos e burocráticos que qualquer pessoa pode fazê-los sem qualquer ônus ou auxílio. Enquanto adormeço entendo o porquê.

Ciro Facundo

Anúncios