A vida em cor de rosa

Tristes não foram os dias em que fiquei em Paris, um pouco estranhos, de fato. Pela tarde, devorei as ruas daquela cidade grande com cara de cidade pacata ao lado de um chefe de cozinha português. Não, eu não conhecia ele até a manhã antes daquela tarde, quando acordei no quarto do hostel em que estava hospedada com o barulho de suas malas. Ele não falava inglês e quando eu, na tentativa frustrada de ajudá-lo, falei um palavrão em português-brasileiro, ele logo retrucou com “mas você fala português? ”. E não, essa não é uma história de amor. É só uma história de como saí para passear em Paris com um cozinheiro que havia morado na cidade por 10 anos. E eu não poderia ter encontrado guia melhor.

Na manhã seguinte, comecei a me despedir da França às 9h da manhã. Era inverno europeu, o que resultava em temperaturas de 10 graus acompanhada de uma chuva leve que não cessava. Saí para fotografar e aproveitar as poucas horas que me restavam no país, disse adeus a torre Eiffel, que por sinal é a coisa mais fascinante que já vi na vida (ela toca o céu) e retornei ao bairro onde estava hospedada. Caminhei até o McDonald’s mais próximo, fiz meu pedido e enquanto caminhava para minha mesa, escorreguei com a bandeja de comida no chão molhado. Por 15 segundos, alguns franceses me encararam com um olhar de pena, mas pouco depois eu já estava de pé pronta para seguir a vida. “Nada de ruim pode acontecer mais”, pensava sozinha, enquanto admirava a vista sem graça da janelinha ao lado.

Porém, ao sair do lanche-almoço, eu não imaginava que seria abordada por uma mendiga gritando comigo em francês. Desviei o caminho e apressei o passo, mas nada impediu que ela viesse atrás de mim e me empurrasse para fora da calçada. Sabe aquelas coisas que acontecem na vida e você pensa que está vivendo um filme? Pois é. Minha única reação foi sair correndo de volta para o McDonald’s e começar a pedir ajuda em todas línguas que eu conseguia lembrar. Sim, porque na hora do desespero a gente esquece inglês, português, mandarim, francês… Enquanto aquela adorável moça me perseguia dentro do estabelecimento e eu gritava por socorro, ninguém entendia muito bem o que estava se passando. Depois de algumas explicações mal explicadas, entendi que ela só queria dinheiro para comer. E assim aconteceu. Ela ganhou um trio com sanduíche, coca-cola e batata frita média. E eu fui andando até o hostel com um amigo do segurança da lanchonete que não parava de rir da minha cara. Pois é, franceses.

Chegando ao hostel, encontrei alguns amigos que havia feito no café da manhã e expliquei toda a situação. Peter, o norte-americano viajado de olhos grelados, disse que eu não poderia sair de Paris com uma impressão ruim. “Eu tenho que pegar um transfer até o aeroporto em 20 minutos, Peter”, respondi. “Por favor, só um cappuccino e um croissant. Você precisa ter uma boa memória desse lugar”. Que mal faria ir até o cafezinho do outro lado da rua enquanto esperava o transfer? Acompanhei Peter até a boulangerie (acho chique esses nomes em francês), batemos um belo papo sobre a Amazônia e voltamos para o hostel.

Para nossa surpresa (ou não), o transfer havia chegado antes da hora marcada (ué, mas aqui não é a França, gente?) e partiu sem mim. SEM MIM! FALTANDO 3 HORAS PARA O VOO! Sem muita reação, deixei os tais amigos do hostel pensarem numa solução para mim, porque tudo que eu conseguia pensar era “meu pai vai ficar PUTO”. “Pega suas malas, eu vou te levar até a estação de trem e você vai de trem para o aeroporto”, disse Peter. Realmente, era a melhor ideia. Correndo pelas ruas da cidade até chegar à estação de trem, com duas malas e um gentil estranho, consegui comprar um ticket e embarcar.

Uma hora até chegar ao aeroporto. Um vagão vazio, exceto por mim e uma mulher com um bebê, encostei a cabeça na janela enquanto observava a chuva entristecer o vidro. “Você viveu seu sonho, não foi? É isso que importa”, pensava enquanto um semblante pensativo preenchia meu rosto.

Quando eu achava que meu coração sairia partido da cidade mais romântica do mundo, um rapaz entra no vagão com um acordeão. Após alguns segundos de silêncio, ele começa a tocar a música que havia sido o ponta pé inicial para meus estudos de francês e o sonho parisiense: Paris era a vida em cor de rosa.

Adrielle Farias